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ORAÇÃO E SILÊNCIO
Junho 2010

Nathalia e eu fizemos uma ótima viagem de férias. Passamos alguns dias na estância hidromineral de Águas de São Pedro, cidade pacata do interior paulista. Cidade conhecida pelas águas medicinais. Águas que atraem muitas pessoas. Pessoas do país inteiro e até de outras nações. Muitas pessoas se hospedam nessa cidade para curtirem os banhos com águas medicinais, mas, muitas outras pessoas, se hospedam para fazer ingerir a diversidade de “águas”, por indicação médica. A saúde e a doença caminham lado a lado. Creio até que se tornaram aliadas naquela cidade. Outras pessoas ainda procuram a cidade para descansar e aproveitar a qualidade dos hotéis da cidade. Escolhi essa cidade para passar alguns dias pela sua tranqüilidade e pela suas belas paisagens. Nesse raro período de férias queria descansar, dormir até mais tarde, conversar muito com minha esposa, fazer amizades com pessoas distintas, e ouvir a voz de Deus. Águas de São Pedro “caiu” como uma “luva” nas minhas férias.

Logo que cheguei à cidade eu pude perceber uma esfera de tranqüilidade excessiva e de muita paz. Tudo arrumado. Cidade pequena e muito limpa. Percebi que o barulho era calculado, nada pode tirar a paz da cidade. Vi um motoqueiro e um caminhoneiro sendo multados pelo excesso de ruído provocado pelos escapamentos. Os sons da pós-modernidade são abafados pelo som da bela natureza que circunda a cidade. Reaprendi a ficar em silêncio. Lembrei que é melhor ouvir do que falar. No hotel que fiquei hospedado fui surpreendido pelo silêncio total. Parecia até velório. Logo na entrada o atendente me orientou a ficar e permanecer em silêncio. Se bem que o aviso não era necessário, uma vez que em cada corredor possuía uma enorme placa de silêncio. Ao lado do hotel têm uma grande área de mata virgem, daí percebi o motivo do silêncio. Com o barulho não se pode ouvir e perceber o som da mata.

O silêncio é uma preciosidade para quem vive em um contexto urbano. É bem verdade que muitas pessoas não conseguem viver sem o barulho das sirenes, das buzinas e do movimento das grandes metrópoles. Muitas pessoas, por outro lado, valorizam os lugares quietos e tranqüilos para descansarem e para desfrutarem de alguns momentos de paz. Nem sempre o silêncio nos traz paz. Os barulhos internos do nosso ser provocam mais ruídos do que os barulhos externos. A paz é a ausência de barulho no ser. Em Águas de São Pedro pude relembrar o valor da expressão quietude, que aprendi com a irmã Jesuína, nas aulas de formação espiritual, na Faculdade Teológica Batista de Campinas. Quietude é o silêncio da alma, é a paz do ser, é o estado de percepção da voz de Deus. Jesus falou sobre quietude quando nos ensinou a fecharmos a porta do quarto e orarmos em secreto. Orar em silêncio. Orar sem muito falar. Ele ensinou esse “estar a sós com Deus”, após passar quarenta dias no deserto. No deserto o silêncio é predominante e total. Jesus passava noites orando. À noite as pessoas costumam dormir e o silêncio predomina.

Nesses dias ouvi minha esposa cantarolando hinos com sua voz (soprano) meiga e delicada. Voz que pastoreia minha alma. Pude ouvir o barulho das árvores ao serem chacoalhadas pelos fortes ventos. Nessa hora me lembrei que Jesus disse que o vento sopra onde quer, e naquela manhã Deus estava soprando forte. O vento forte me lembrou que Deus é poderoso. Só ele poderia soprar com tanta intensidade. Ouvi também no entardecer as folhas caindo no chão. O silêncio era tanto que as folhas pareciam que amorteciam suas quedas para não atrapalhar o silêncio. Só se ouvia o barulho das folhas caindo. Ouvi o barulho dos patos, das garças, e das maritacas. Vi centenas de pardais sendo alimentado por uma senhorinha que jogava farelo de pão para eles. Ela estava “ajudando” Deus a cuidar dos pardais, pois, Jesus disse que Deus cuida deles, e que eles não precisam plantar, cear e ajuntar. Se aquela senhora não desse pão aqueles pardais, certamente eles não morreriam de fome, pois, Deus alimenta sua criação. O coral de pardais piando foi lindo, mas ao mesmo tempo inquietante, em uma cidade silenciosamente quieta. O canto encerrava o silêncio. A variedade de pássaros revelou a mim a criatividade de Deus. O bem-te-vi cantou do meu lado. O sabiá cantou em um tom que eu jamais tinha ouvido. O pássaro preto cantava tanto que parecia que seu peito ira estourar. Vi muitas espécies. Muitas que não conheciam. Pude ouvir o canto dos pássaros. Que coisa linda. Um mais lindo do que o outro. No entardecer ouvi os grilos fazendo barulho no mato, as corujas voando e produzindo seus sons diferentes, e as pombas se recolhendo a seus ninhos. O pequeno rio produzia um som de água. Um som suave. Som que acalma a alma cansada. Nesses dias só ouvi a criação de Deus rendendo louvor a Ele. Nos dias que passei em Águas de São Pedro pude ouvir a voz de Deus, pude reaprender que o silêncio é uma oração. Quero estar novamente em silêncio, mesmo vivendo em uma grande cidade. Deus está a falar de várias formas, só preciso descobrir como ficar em silêncio para ouvir a voz graciosa de meu Deus e Pai.
Pr. Jeferson Rodolfo Cristianini