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SAUDADES DA IRMÃ AMÉLIA
Junho 2010

No começo das minhas férias, Nathalia e eu, fomos para Arealva. Uma pequena cidade da região de Bauru. Meu bisavô, quando chegou da Itália, ajudou a formar um pequeno vilarejo, que depois se tornou uma cidade aconchegante às margens do rio Tietê. Cidade que revela minha origem e a história da família de meu pai. Cada vez que visito a cidade que meus antepassados fundaram eu aprendo alguma coisa. As lições emergem das situações mais inusitadas do cotidiano rural. Dessa vez não foi diferente. Fazia quase dois anos que não visitava Arealva.
Minha tia é uma mulher muito piedosa que fez um voto de não se casar e viver para a obra de Deus. Ela sempre foi zeladora da igreja, muito ativa no cuidado dos doentes e sempre fez muitas visitas. Pessoa simples sem escolaridade alguma. Só sabe ler algumas frases das Sagradas Escrituras, mas, de uma sabedoria singular. Muitas vezes aprendo mais conversando com ela, do que pesquisando e lendo sobre algumas doutrinas bíblicas. Ela me ajuda muito a interpretar os textos que falam de um contexto do campo. Muitas vezes Jesus ensinou através de parábolas usando o contexto rural como pano de fundo. Lá no fundo minha raiz é caipira. Assumo e não nego. Gosto dos “causos” do povo do sítio, da simplicidade das palavras e da humildade das pessoas. Em Arealva, assim como nas demais cidades do interior desse “brasilsão” a fora, o tempo parece não passar. Se você não mata o tempo, o tempo te mata de tédio. As pessoas têm tempo para tudo. Algumas gastam tempo em coisas que não fazem sentindo. A cada instante eu olhava para o relógio e fazia os cálculos do que eu estaria fazendo se estivesse em Sorocaba.

Em um dia ensolarado saí para visitar um tio-avô que está muito doente, e que mora alguns quarteirões da casa da minha tia. Tio que me desprezou por não pertencer à mesma denominação religiosa que ele. Ele já superou esse preconceito. Com mais de noventa anos, ele conseguiu discutir comigo sobre alguns temas difíceis da Bíblia. Ele é muito inteligente. Tomamos café, oramos e relembramos coisas de minha infância. Foi bom ver que meu tio ainda tem a mesma vivacidade cristã, que investe tudo o que tem na obra de Deus, e que fica feliz ao saber notícias de seu sobrinho-neto que hoje é pastor de jovens. Depois dessa visita agradável, voltamos à casa da minha tia, e logo ao se aproximar da casa ouvi uma voz diferente. Percebi que tinha visita. Entrei quieto e ao chegar à porta, ouvi minha tia dizer: “Pode entrar Rodolfo. É a dona Amélia que está aqui”. Entrei com olhar discreto e jeito maroto (típico de quem é tímido). Aprendi que quando há visita em casa, não se pode atrapalhar nunca a conversa.

A irmã Amélia logo me reconheceu e me saudou com a graça e paz de Jesus. Prática comum entre os cristãos primitivos, que permanece em algumas pessoas. Comecei a conversar com minha tia e com a irmã Amélia, e o papo se estendeu por alguns minutos. Ao conversar com aquela senhora cansada, com mais de oitenta anos, eu revi minha espiritualidade e meus valores. Aprendi muito. Pena que ela mora longe de Sorocaba. Ela me falou muito sobre educação de filhos. Ela criou doze filhos nos caminhos santos de Deus e nenhum se desviou. Ela falou como driblar as artimanhas da modernidade e “criar” os filhos na igreja. Ouvi atento e fiz minhas considerações. Quando for pai, irei resgatar aqueles conselhos.

Ao falar sobre educação de filhos, era possível detectar os versículos sendo citados. Tudo o que ela dizia tinha uma fundamentação bíblica. De forma impressionante, ela estava usando todo o seu conhecimento acumulado para ajudar um jovem pastor. Diante da sabedoria e da forma com que ela aplicava, e atualizava os preceitos bíblicos, eu me senti pequeno. Fiquei constrangido e senti que pouco sei sobre vida cristã. Ela não sabe ler, não fez nenhum curso de Teologia, mas sabe depender de Deus em tudo e para tudo. Ela ajudou a minha avó, quando a mesma estava doente. Ela sempre ia orar com minha avó. Depois que ela veio a falecer, ela nunca deixou de visitar minha tia. Nesse dia ela separou alguns momentos para demonstrar sua compaixão à minha tia com uma visita. Ela deixou seus afazeres para ir orar, e para saber notícias de uma pessoa querida (minha tia e sua irmã em Cristo). E depois da visita ela foi para o culto na igreja. Com sua humildade e simplicidade ela me deu uma aula de discipulado e vida cristã.

Naquele final de tarde, eu senti o que é ser cristão. É bom fazer parte da família de Deus. Não precisamos de carteirinha de identificação, não precisamos de um vestuário específico, mas da convicção de que Jesus é o nosso Senhor. Pude relembrar do ensino de Jesus de amar o próximo, do cuidado mútuo e do valor da oração. A irmã Amélia me mostrou na prática que vida cristã se dá no dia-a-dia. Ela me mostrou que uma pessoa enferma e idosa merece atenção redobrada (no caso da minha tia). Ela me ensinou que sempre há alguém precisando de uma visita e de uma oração. A irmã Amélia, já está bem idosa e na sei se a verei novamente; mas, agradeci a Deus pela vida daquela irmã.
Visitando minha tia, minha vida cristã foi regada de muita espiritualidade. Gostei da dupla: minha tia e a Amélia. Os momentos de oração eram com fervor, as conversas com muita reverência, as citações bíblicas eram feito com muito temor. As duas não sabiam conjugar os verbos de forma correta, não sabem falar de forma bonita e coloquial, mas vivem o que professam. Resumindo tudo: aprendi que vida cristã é prática e nunca discurso e que os momentos mais relevantes se dão nos bastidores da vida e nem sempre na vitrine. Minha tia e a irmã Amélia não mudaram o mundo inteiro, mas mudaram o contexto em que vivem. Quero influenciar o contexto em que vivo, não com minhas palavras, mas com minha vida prática. Obrigado dona Amélia pela lição. Buscarei viver o que aprendi. Nunca mais me esquecerei dessa irmã. Só o Reino de Deus proporciona uma aula sobre humanidade assim.

Pr. Jeferson Rodolfo Cristianini