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A CASA DO LUTO E O VALOR DA VIDA

“Melhor é ir à casa do luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” Ec 7:2

Sempre que estou diante do luto minha mente faz uma revisão da minha vida. De forma automática passam-se flashes da minha caminhada cristã, e de como essa minha caminhada contribui para que eu fosse mais humano. Seguir a Cristo é despojar-se da desumanidade e contemplar as carências da existência humana. O nosso cotidiano se tornou tão violento que banalizamos o valor da vida, não nos comovemos com freqüência com a notícia de uma morte. Os meios de comunicação nos bombardeiam com tantas notícias que revelam a violência e a crueldade humana que não valorizamos a vida.
Ao ler os evangelhos, vemos Jesus lidando por diversas vezes com a morte. Em algumas vezes ele curou as pessoas, em outras ele ressuscitou; mas, no caso de Lázaro ele chora. O menor verso da Bíblia revela nosso Salvador chorando. Cristo chora ao ver o que o pecado fez na humanidade. Lázaro ao morrer, representa o nosso desligamento do Criador, e ao ver essa pintura de distanciamento, de insuficiência humana em relação à morte como estágio final, Ele chora. Chora por contemplar a dor do pecado na vida de Lázaro, chora por perder um amigo, chora ao vê-lo sofrer a conseqüência do pecado e ao ver sua família sofrendo com o luto. Se nosso Mestre chorou diante da morte, choremos também diante da morte. Cristo chora e depois ressuscita seu amigo. Que quadro lindo. O Salvador se compadece e logo em seguida doa a vida de forma natural.
Na casa do luto se aprende o valor real da vida. As pessoas que estavam velando Lázaro aprenderam grandes lições. A morte questiona os nossos valores de vida, nossa forma de nos relacionarmos comunitariamente, nossa maneira de olharmos e analisarmos o mundo, nossa desumanidade, nossa atitude de amor ou desamor em relação aos nossos familiares. Parece que só refletimos sobre as questões básicas e primárias da fé e da vida, quando estamos diante da morte, ou em situações que nos remetem a ela. A morte nos relembra que somos pó. No cotidiano, poucas vezes paramos para refletir a respeito da instabilidade e da falibilidade da vida. A morte questiona a nossa gratidão em relação ao Pai. Diante da morte temos é que agradecer por mais um dia e vislumbrar a graça Divina ao amanhecer; temos que agradecer o dom da vida, o ar que respiramos o alimento que temos para a manutenção do seu corpo.
Diante do luto a nossa fé, que muitas vezes fica empoeirada em nossa vida, é reativada ou é analisada de forma mais severa. A morte passa o espanador na poeira e traz a tona a fé de outrora. O dia-a-dia faz isso mesmo, apaga nossa fé, murcha nossa espiritualidade, nos deixa insensível aos dilemas humanos. A fé estagnada não nos deixa ver as crises das pessoas, e a morte chega e nos relembra tudo isso. Sem a morte essas coisas estariam lá empoeiras e guardadas em algum lugar de nossa existência.
Na casa do luto até há alegrias, quando a pessoa que partiu, partiu para o encontro de Deus; mas, sempre a casa do luto é um divisor, ou deveria ser um divisor de nossa existência. A morte tem que provocar em nós reflexões profundas. O sentido da vida, a busca por Aquele que é superior e criador, nosso Deus e Pai. Na casa do banquete só há coisas boas. Lá encontramos festa, pessoas felizes, sorrisos nos lábios mesmo que seja uma alegria passageira, vemos ali a fartura. Banquete é algo que extrapola o comum. Banquete é para um dia especial, para convidados especiais, é algo distinto da refeição cotidiana. Na casa do banquete não se reflete sobre a vida, sobre os dilemas, sobre os problemas, sobre as depressões, sobre as doenças, nada disso é questionado, pensado e conversado. Festa é festa e vice-versa, é dia de alegria; mas aí vem a morte e nos coloca na parede. Salomão nos diz que é bem melhor ir à casa do luto do que ir à casa do banquete.
Na casa do luto somos forçado a pensarmos no que temos feito com bela vida que Deus nos deu, se estamos vivendo-a para a Glória dEle. Na casa do luto vemos o futuro que nos aguarda: a morte. A morte alimenta a nossa vida. Parece contraditório, mas não é. Ela nos dá motivos para vivermos a vida de forma mais intensa e com mais qualidade. O corpo de fato voltará para o pó, de onde saiu; mas, o Espírito voltará para o Criador. A morte nos ajuda a lembrarmos disso. Salomão nos adverte a termos consideração diante da morte. Quando você estiver perdendo a razão de viver, ou vivendo de forma desconexa daquela idealizada por Deus, vivendo em rumo, vivendo sem refletir tudo aquilo que Deus te deu, vivendo a vida de qualquer forma, volte à casa do luto e verás a vitória que é acordar pela manhã para mais um dia. A morte alimenta a vida. De fato é melhor pensar sobre a morte do que sobre o banquete, obrigado Salomão! De tempo em tempo vá à casa do luto, para que a vida não se torne banal. A vida é dom de Deus, e a morte é o encontro com Ele.
Pr. Jeferson Rodolfo Cristianini