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MORTE: JANELA PARA A VIDA ETERNA

Uma leitura de II Timóteo 4:6-18
O Apóstolo Paulo nos impressiona com sua vida e testemunho. Sem sombra de dúvidas, Paulo é uma referência para o Cristianismo. Ele que levou o Evangelho aos gentios inicialmente. Foi ele quem fez o maior tratado teológico, o livro de Romanos. Foi ele quem fez a mais bela, atual e relevante interpretação da Lei e da tradição judaica. Foi ele o maior propagador do evangelho, foi ele o maior missionário de todos os tempos, alcançando muitas etnias de sua época. A vida desse Apóstolo é tão relevante que nos leva a uma vida cristã mais autêntica e ativa. Paulo muito nos ensina. Paulo mostra como viver o evangelho de forma integral, ele só fazia isso: ser cristão. Paulo em seus escritos nos deixou um legado de fé e esperança. Sua contribuição foi enorme, pelo seu trabalho e por seus escritos. Paulo tinha uma certeza naquilo que cria e zelava por sua vida espiritual e moral. Ele se coloca como um exemplo a ser seguido, mais precisamente, uma pessoa a ser imitada (cf. I Cor 11:1).
O texto que estamos analisando, é pra muitos uma bela declaração de fé. Declaração mesmo estando preso. É isso mesmo. Como pode em uma situação como essa ter fé? Pois é, Paulo tinha, aprenda com ele, siga seus passos. Mesmo após contribuir para a paz e a evangelização do mundo, Paulo está a um passo da morte. Não porque seu corpo estava a entregar-se a falência múltipla, mas porque iriam matá-lo. O crime de Paulo era crer em Cristo e pregar essa crença. Além de uma declaração de fé, as palavras dele se tornam um testamento. Seu testamento não vem repleto de bens matérias, pelo contrário, vem recheado de esperança, gratidão e fé em Deus. A morte não causa pavor e medo nele. Paulo está em um momento crítico de sua vida, mas feliz. A morte não causa tristeza no Apóstolo, mas alegria de ter cumprido seu papel no tempo em que viveu. Paulo marcou sua época. Mesmo acorrentado e com a morte à porta, ele escreve essa carta linda ao jovem pastor Timóteo. Os homens podiam prender seu corpo, mas não sua mente. Preso fisicamente, ele faz uma reflexão de sua vida e de seu ministério. Faz uma revisão. Sua mente estava fechada pra balanço. Para ele tudo provém de Deus, tudo é graça Divina e nada foge dos planos eternos, inclusive a morte como prova de sua fidelidade (cf. Rm 8:28).
Ele sempre buscou ser um exemplo de Cristo. Seu alvo maior era ser testemunha de Cristo. Morrer pela obra de Jesus era a glorificação daqueles que eram perseguidos por proferirem isso, dessa forma, seria o clímax da vida dele. Morrer pelo Mestre seria obrigação pra Paulo. Morrer é testemunhar, é encontrar-se com O amado, com o desejado, com o transcendente. O seu maior testemunho era a sua morte. Chegou o momento dele provar sua fidelidade. Ele interpreta sua morte e seu sangue derramado por Cristo, como um sacrifício de valor expiatório: “já fui oferecido por libação” (vs:6a). O sangue e a morte de Paulo não é o fim do avanço missionário e nem do cristianismo, mas é uma motivação a mais para Timóteo, Tito e tantos outros contemporâneos dele. Seu sangue acenderá a chama pela divulgação do evangelho. Naquela época valorizavam os mártires. Mais uma vez ele seria visto como um exemplo vivo, aliás, agora, um exemplo morto. Mas vivo nas mentes. A libação parece ser um esvaziar-se completamente. Sua partida é como se fosse uma dissolução, uma liberação; é como se Paulo liberasse a si mesmo para a morte. Sua dissolução seria o soltar de um freio de mão puxado, como se a vida o prendesse e a única possibilidade de liberdade seria a morte. Seria uma morte que liberta. Ele diz que o tempo de partida havia chegado (vs:6b); alguns diriam que seria sua partida da prisão, sua liberdade. Isso até faz sentido pelas expectativas que ele tem face ao futuro. Mas a urgência com que ele pede a presença de seus amigos é um reflexo de quem está se despedindo desta vida e não de quem tem certeza que viverá mais alguns anos. A morte não é o fim para ele, mas o início de uma nova viagem, um partir pra todo o sempre. A morte é a prova máxima de sua auto-entrega, de sua devoção, de sua renúncia, de seu amor à causa de Cristo. A paixão de Paulo é a extensão da de Cristo: “preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja” (Cl 1:24).
Ao refletir sobre o passado, ele se sente realizado, com sua missão cumprida. De forma exemplar, ele cumpre seu ministério, até mesmo algemado. O zelo Apostólico é nítido, pois, mesmo algemado está a escrever tudo isso a Timóteo, afim de que o mesmo seja estimulado a prosseguir nessa missão nobre, a pregação do Evangelho. No passado, ele lembra e busca as ilustrações de seu compromisso com Cristo. Ele se compara a um solado que lutou a guerra, mas saiu vitorioso: “combati o bom combate” (vs:7). Paulo diz que até onde pode lutar, ele o fez; até onde pode guerrear, ele guerreou; o que pode fazer pelo evangelho o fez. Após comparar-se a um soldado ele se assemelha a um atleta. O atleta se esforça para cumprir seus objetivos. Ele faz uma referência de atletas que havia na sua época, que corriam nos estádios, dessa forma, ele correu a corrida da fé, correu para a santificação, correu para honrar a Cristo, correu a caminha cristã com zelo. Ao perceber que correu o que estava proposto pra si, ele declara: “completei a carreira”, em outras palavras, “terminei minha corrida”. Tudo isso ele declara, quando está algemado à beira da morte. A morte era tão certa que ele guarda a fé (vs:7c). Depois de lutar como soldado e correr como atleta, a fé pode ser guardada, pois foi usada até o momento, e de forma intensa. A vida que está além da morte não exige fé, só amor (cf. I Cor 13:13). Na eternidade não precisaremos ter fé, pois estaremos diante de Deus pra sempre, precisaremos somente do amor.
Ao refletir sobre o futuro, ele visa sua glorificação e sua exaltação por ter sido um sevo fiel. Sua esperança é receber a coroa da justiça. Paulo mistura os desafios de uma guerra e as dificuldades de uma disputa esportiva na sua vida, mas sua recompensa é a coroa. Como atleta receberá a coroa da justiça, que simboliza a sua glorificação, sua vitória completa, sua alegria e recompensa; e tudo isso, sendo entregue pelo Senhor, reto juiz. A coroa é como a medalha militar de honra ao mérito. Paulo olhando para o futuro só consegue ver o Reino de Deus, e até na sua glorificação ele lembra de todos. Um missionário integral. No seu momento ele lembra de todos os que amam e acreditam na vinda do Senhor (vs:8c). Sua morte é inclusiva.
Diante do tribunal Paulo estará em breve, mas sua proximidade com o Mestre é algo surpreendente. Assim como disse Cristo Jesus: “todos me abandonaram” (cf. Mt 26:31), assim também é Paulo diz: “todos me abandonaram” (vs:16 c). Paulo está sem os amigos (que ele pede que venham depressa –vs:9), sem um advogado de defesa e sem recursos, somente com a esperança de estar com Deus pra sempre. Paulo tinha esperança em Cristo apenas. Todos podem nos abandonar quando a morte nos rondar, mas Cristo não. O tribunal é para Paulo testemunho para que “a pregação fosse completamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem” (vs:17b-c). Tudo isso porque Deus é fiel e deu forças a ele (vs:17a). A esperança dele é algo a ser imitado, pois, após tudo isso, ela declara: “O Senhor me livrará também de toda obra maligna... A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (vs:18). Para aqueles que servem a Deus, e tem certeza da sua salvação; a morte não é distância de Deus, mas sim proximidade; não é desligamento, mas junção eterna; não é tristeza, mas sim alegria eterna. Morrer pode até ser um fechar de portas, mas um fechar de portas para esse mundo e; um abrir a janela da vida. Vida essa com Deus. Vida eterna. Morrer não é terminar a obra, é estimular a outros. Morte não é o fim, mas é a entrada para o tempo eterno. A morte para Paulo revelava missão cumprida, meta alcançada. Morrer seria como se você abrisse a sua janela e contemplasse um dia ensolarado e belo, após alguns dias seguidos de chuva e tempo nublado. Morrer é descortinar aquilo que não se conhece, é ter acesso ao inimaginável, é encontrar-se com Deus pra todo o sempre. A morte é a porta de entrada na eternidade, alguns para a perdição e outros para a glória. Morrer é soltar o freio de mão para que o carro possa prosseguir; é soltar as cordas e velas, a fim de que o barco possa seguir seu rumo na imensidão do mar. Paulo tinha essa certeza: “O Senhor... me levará a salvo para seu reino celestial” (4:18b). Vale à pena soltar o freio de mão e as velas, quando se sabe o destino aonde se chegará.
Pr. Jeferson Rodolfo Cristianini